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sexta-feira, 29 de março de 2013

Opinião: Sporting apenas de Portugueses. Faria sentido?


Sempre que se fala em excesso de estrangeiros na Liga Portuguesa uma ideia que acaba por pairar é: porque não os mandamos embora e construímos uma equipa composta exclusivamente por jogadores portugueses?

Não entrando nunca no espectro do politicamente correcto – obviamente que o que está aqui em causa não é a xenofobia segregacionista – por vezes pode soar como uma boa ideia. Afinal, se todos os jogadores forem portugueses, da formação ou oriundos de outros clubes nacionais, um clube poupará quer nas suas contratações, quer na prospecção. E poderá manter mais jogadores com um sentimento de “amor ao clube” mais acentuado, que se traduzirá em campo. E ainda, quando forem realizadas transferência, o clube acaba sempre por arrecadar um valor mais elevado pelo jogador. Mas será que isso faz sentido do ponto de vista desportivo? Serão mesmo tudo rosas? E serve para um clube de dimensão Europeia como o Sporting?

Numa primeira análise um clube como o Sporting parece ser o melhor exemplo de um clube com capacidade para implementar uma solução deste tipo. Afinal é um clube de grande relevância europeia e acima de tudo possui aquela que é, reconhecidamente, uma das melhores Academias formadoras do Mundo – se não mesmo a melhor. Se fosse um desejo do Sporting, enquanto política do clube, seria feito do dia para a noite. Mas o que significaria para si enquanto clube competitivo?

Provavelmente um futuro pouco brilhante.

As soluções exclusivamente nacionais já foram tentadas noutros pontos do Globo. O exemplo mais actual é o Atlético de Bilbao que tem nas suas fileiras apenas jogadores nascidos no País Basco e arredores – uma zona que não sendo uma nação representa “virtualmente” uma para os seus adeptos.

Num país rico, o objectivo de um clube respeitável é conseguir obter e manter os bons jogadores por um período prolongado de tempo para lhe trazer sucesso desportivo. E sucesso desportivo, num clube com dimensão similar à do Sporting no seu próprio país, consiste em lutar pelo título e lutar por uma prova europeia.

Portugal não é um país rico –surpresa! – e como se pode calcular é extremamente difícil manter um craque por um período prolongado de tempo. Algumas notícias lançadas aqui e ali apontam para que o ordenado máximo dos melhores jogadores a actuar em Portugal ronde 1 milhão de euros por ano, cerca de 100 mil euros por mês. Ora, 100 mil euros por mês, é um “ordenadão”… mas em países como Inglaterra este valor é oferecido por semana! Penso que é bastante consensual que os melhores jogadores a actuar em Portugal estão claramente acima dos jogadores médios de Inglaterra, os tais que efectivamente ganham 100 mil por mês (não é pois uma surpresa que nunca se ouça falar de um jogador da Premier League que seja contratado por um clube português). Quando um craque português sai de um clube é necessário suprir rapidamente essa perda com alguém de igual qualidade.

Para além disso, há que ter em conta outro factor altamente prejudicial da hipotética falta de estrangeiros num Liga Portuguesa: a falta de visibilidade. Um campeonato disputado exclusivamente por portugueses seria muito interessante… para os portugueses. Isso mesmo, Portugal, um país de 11 milhões de pessoas pararia aos fins-de-semana para ver os seus filhos jogar. O resto do Mundo estaria a ver a Premier League. Patrocinadores incluídos. De onde viria o dinheiro então? Da Associação de Pais? Um clube de um campeonato com pouca visibilidade como o nosso tem que ter forçosamente jogadores estrangeiros para, no mínimo, uns largos milhares de estrangeiros também o queira ver. E ao vê-los, vêem também os nossos. E depois querem contratá-los! E quando os vêem no Manchester United ficam curiosos por saber de onde eles vieram. E procuram o seu antigo clube. E é o Sporting! Mais audiências para ver novos craques. Mais dinheiro para os contratar!

Os jogadores estrangeiros acabam por pesar em diversos factores. Eles trazem visibilidade ao campeonato.

E potencial comercial? Muito…dependendo de onde vêm.
No início desta época o Sporting contratou um jogador Indiano para potenciar a marca nesse país. Tirando a maneira completamente catastrófica como foi executado o negócio, a ideia era boa. Um país com um enorme número de população, um gosto crescente pelo futebol mas uma selecção de relevância reduzida pára todos os sábados para ver a sua estrela nacional brilhar no Sporting. Não tarda há milhares (milhões!) de indianos de camisolas do leão ao peito. Mais tarde há um amigável com a melhor equipa local. Depois uma digressão. Entra muito dinheiro. Um clube agiganta-se!

Potencial desportivo? Ora, também, claro que sim.

A perceber, um clube como o Sporting pode e deve ter a sua própria metodologia de treino. E isso pode e deve incluir um ou mais sistemas tácticos. E os jogadores podem e devem ter os seus papéis definidos nesses sistemas. Isso faz com que cresçam como jogadores. Mas a entrada de um jogador que não está familiarizado com a metodologia, apesar de poder trazer problemas de adaptação, pode também trazer um certo elemento de novidade, criatividade e alternância ao jogo. Uma mudança fruto das características do futebol de onde esse individuo é oriundo! Brasil, irreverência. Argentina, criatividade. Itália, poderio defensivo. Inglaterra, poderio físico. O convívio com outras culturas permite também aos jogadores desenvolverem a sua própria mentalidade e estilos de jogo.

O problema do excesso de estrangeiros no campeonato português, não é um problema de estrangeiros. É um problema de excesso. E de alguma qualidade duvidosa. Existe uma ideia generalizada que fica mais barato investir num jogador da 3ª Divisão dum país sul-americano do que num jogador nacional. A isto chama-se falta de visão a longo prazo. Se uma equipa aposta no desenvolvimento próprio de jogadores, acompanha o seu crescimento. Sabe como eles são e sabe o que eles valem. Poupa dinheiro na sua equipa que pode utilizar para trazer um jogador da 2ª Divisão do mesmo país com créditos firmados. Um jogador que ajude os seus pares a brilhar. E a equipa a sobressair. E o dinheiro a entrar.

Ninguém quer ver uma equipa exclusivamente portuguesa. Mas ninguém devia ser obrigado a ver uma equipa com só UM português. Perde-se a ligação ao seu clube, à sua história, ao que ele significa. A resposta à pergunta “Só portugueses numa equipa?” parece estar no sítio onde todas as boas respostas estão neste mundo: no meio-termo.

“Faz sentido uma equipa de um país ter uma clara maioria de bons jogadores nacionais para manter a sua identidade e nacionalidade, mas deverá contar sempre nas suas fileiras com jogadores estrangeiros que façam a diferença em termos desportivos, financeiros e sociais.”

Curiosamente, uma opinião que o novo Presidente do Sporting partilha no seu programa eleitoral.

E tu, o que achas? Deixa a tua opinião.
Anónimo disse...

Excelente, Carlos! Subscrevo inteiramente, não mudo uma vírgula do que escreveste aqui. Esperemos que seja o primeiro de muitos posts teus aqui no blog :)

Eric Jamal disse...

É algo que tem acontecido indiretamente no clube, passámos do clube entre os 3 grandes e mesmo comparativamente a alguns clubes da primeira liga, com maior percentagem de jogadores portugueses e FORMADOS no Sporting, para um clube que compra um plantel inteiro de estrangeiros deixando um pouco a imagem de marca (a formação) de parte. Veremos agora, com Bruno de Carvalho a puxar os cordões, qual a política utilizada para profissionais no clube. Obviamente que tem sempre de existir um equilíbrio, como referiste a nível financeiro, desportivo e social, como por exemplo a questão do marketing e, obviamente quando se fala de qualidade pouco interessa de onde é oriundo o jogador... Mais uma vez bem vindo, grande post.

Sporting Clube De Portugal - Adeptos disse...

Naturalmente defendo a ideia de termos mais jogadores portugueses no plantel, porém, não é qualquer um, e para além disto, acho que ao nível a que o Futebol Mundial se encontra, não é possível (se quisermos lutar pelo título) construir uma equipa só de portugueses.
Cada vez mais o Futebol Mundial, neste caso o Português depende muito de jogadores estrangeiros, mas o que é verdade é que muitos dos jogadores portugueses formados não têm qualidade para integrar uma equipa que queira lutar pelo título contra outras equipas recheadas de grandes talentos estrangeiros...

Por isso, concordo totalmente com o que disseste.
Parabéns pelo post, muito bom.

Andre disse...

Grande texto, está mt bom e concordo com tudo.