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sábado, 27 de abril de 2013

Antologia Táctica: Volume II - O nascimento da WM



No primeiro capítulo desta série de artigos (leia AQUI) sobre a evolução das formações do futebol foram cobertas as raízes do jogo, a maneira como este era jogado no início e as alterações fulcrais às regras do jogo que despoletaram o início da evolução que viria a culminar com as formações actuais. Dessas primeiras regras, a que viria a ter o impacto decisivo na criação do 2-3-5 – a primeira grande formação do futebol – foi a chamada Lei Seis, vulgo a Regra do Fora-de-Jogo.

Esta regra, criada em 1863, ditava que um jogador não poderia receber a bola se entre ele e a baliza estivessem menos que 3 jogadores, ou seja, o guarda-redes e dois defesas. O estilo de jogo nesta altura continuava dividido entre a jogada individual do membro mais avançado da linha da frente e a sucessão de passes entre o meio-campo e os avançados, notavelmente, entre o médio-centro e os 5 avançados.

O que correu mal?


Embora no final do século XIX e início de século XX o futebol fosse um jogo de cariz altamente ofensivo (lembrem-se, 5 avançados e apenas dois defesas), havia naturalmente equipas mais fortes e equipas mais fracas. O que havia ainda mais do que hoje era um fosso entre as esquipas mais fortes e as mais fracas. E tal como hoje em dia, as equipas menos poderosas recorriam à estratégia por excelência para defrontar os colossos: a Defesa. Se actualmente muitas equipas optam por aumentar o número de jogadores defensivos e “fechar as linhas”, nos primórdios havia uma estratégia muito mais eficaz: o fora-de-jogo.

Como a Lei Seis permitia que entre o receptor da bola e a baliza estivessem 3 pessoas, esta lei era altamente restritiva para o ataque, nomeadamente para o jogo de passe. O que algumas equipas faziam para explorar esta regra era incrivelmente simples, mas impiedosamente eficaz: um defesa ficava sempre atrás, mas o outro subia no terreno tentando “caçar” o jogador mais avançado da equipa adversária. Uma vez que a linha do fora-de-jogo era limitada pela posição deste jogador, esta táctica comprimia efectivamente os adversários. Se por acaso algum conseguisse quebrar o fora-de-jogo, haveria sempre o defesa mais recuado para “o limpar”.

Armadilha de fora-de-jogo primordial.

Esta situação atingiu o seu limite em 1925, quando o Newcastle de Inglaterra, mestre desta táctica, atingiu o seu sexto empate a zero na época. Um recorde absoluto para uma altura em que a média de golos por jogo passava dos 3. Além dos resultados, também os jogos se estavam a tornar monótonos, já que a subida do defesa para caçar os avançados acabava por limitar o jogo uma pequena faixa que pouco passava do meio campo. Tinha que ser tomada acção. E assim foi.

A Nova Regra.


Em 1925, após a série de empates do Newcastle, a FA reuniu com um simples propósito: alterar a regra do fora-de-jogo de modo a devolver a emoção ao futebol. Duas alternativas foram propostas: ou era requerido apenas dois jogadores entre o avançado e a baliza (tal como agora) ou era adicionada ao campo uma linha a 40 jardas (cerca de 36m) de cada baliza entre as quais um avançado nunca podia estar fora-de-jogo.

Ao contrário do nosso glorioso século XXI, onde qualquer alteração no futebol necessita de uma equipa multidisciplinar, anos de estudo e milhões de euros para implementar, em 1925 as novas propostas começaram logo a ser testadas, realizando-se para o efeito amigáveis em que cada parte era jogada de acordo com uma proposta. A FA decidiu que gostava mais da variante dos dois homens entre a recepção da bola e a baliza e a regra foi alterada a tempo da nova época, numa questão de meses!

Os resultados foram dramáticos. Na época 1925/1926 a média de golos saltou para os 3.69 e como consequência directa da nova Lei o jogo “esticou”, tendo as equipas muito mais espaço para onde jogar livremente. O jogo de passe curto foi rapidamente substituído por bolas longas para os avançados e causou um certo caos nas equipas menos preparadas para lidar com a mudança. Havia essencialmente defesas a menos!

O nascimento da W-M.


O homem que teve a mestria para inventar a nova formação W-M, foi Herbert Chapman. Tendo trabalhado em vários clubes ingleses antes de despontar a nova formação em toda a sua glória no Arsenal de Londres, Herbert Chapman cedo se apercebeu que o ritmo de ataques sucessivos imposto pelo futebol original era impraticável. Uma equipa pura e simplesmente não conseguia atacar durante tanto tempo sem atingir o seu limite físico. Teve então a brilhante ideia de inventar… o contra-ataque!
Herbert Chapman - o inventor da WM.

Ainda antes da Leis Seis ser alterada, já Chapman fazia recuar o seu médio-centro para poder travar melhor os avançados e rapidamente colocar a bola para os avançados. Não era ainda um defesa efectivo, seria talvez mais parecido com um trinco que organizava o jogo ofensivo. Chapman levou o Huddersfield à glória doméstica e decidiu dar o salto para o Arsenal. Note-se que o Arsenal era na altura uma sombra do colosso actual, mas Chapman via na equipa um grande potencial. Aquando da alteração da Lei do fora-de-jogo já este treinador alinhava o seu médio-centro mais atrás. Tão crucial quanto esta alteração foi o facto de ele se ter apercebido que, recuando um homem do meio-campo, algum avançado teria que descer para não criar um buraco. E assim fez descer o seu interior-esquerdo (note-se, usando 5 avançados, os interiores são os 2 jogadores que flanqueiam o avançado-centro).

A estratégia funcionou… mais ou menos. Depois de alguns resultados menos bons, Chapman apercebeu-se que o que faltou foi não ter revolucionado o suficiente. O médio descia, mas não para o alinhamento da defesa, continuava a predominar no meio-campo. O treinado não teve meias-medidas, contratou o seu novo jogador que, em vez de ocupar o meio-termo entre o centro e a defesa, descia completamente para o meio dos defesas. Estava criado o terceiro defesa, efectivamente o defesa-central. A sua tarefa era incrivelmente simples e eficaz interceptar as bolas aéreas ou rasteiras para os avançados, desarmá-los e rapidamente passar para um companheiro no meio-campo.

A W-M.

Finalmente em 1930, quando o Arsenal ganha a sua primeira FA Cup, a formação tinha tomado a sua forma: os defesas-laterais marcavam os alas adversários (os extremos), os dois médios marcavam os avançados-interiores, o novo Defesa-Central marcava o avançado-centro adversário  e os avançado-interiores recuavam para providenciar jogadas para os avançados (ao estilo dos médios ofensivos ou segundo-avançado actuais). Estava criada a W-M!


Antologia Táctica: Volume I - O Início AQUI
Antologia Táctica: Volume III - A formação 4-2-4 AQUI

Sporting Clube De Portugal - Adeptos disse...

Grande post!
Revelas uma cultura futebolística e um saber sobre futebol impressionante!
Parabéns, este é o tipo ideal de post, para quem quer aprender mais e saber mais sobre o Futebol de hoje em dia!