No capítulo anterior desta série de artigos sobre a
Antologia Táctica do futebol falou-se sobre a primeira grande formação que este
desporto viu, a WM. Esta formação nasceu como resposta a uma evolução nas
regras do jogo, nomeadamente na nova regra do fora-de-jogo, introduzida em
1925. Esta nova regra, a Leis Seis, tornaria o fora-de-jogo similar à noção
actual da mesma, ditando que um jogador estava em jogo apenas se na altura do
passe, entre ele e a baliza, estivessem no máximo dois jogadores – tipicamente
um defesa e o guarda-redes. Isto “obrigou” a que se abandonasse as formações
com 2 defesas da altura (o 2-3-5 tipicamente) e se adicionasse mais um ao
sector recuado. E foi assim que o médio-centro, originalmente um
avançado-centro, completou a sua migração no campo, fazendo uma descida
completa.
Hoje em dia talvez não conheçam nenhuma equipa que jogue em
WM. É natural, já que esta formação está extinta há quase 50 anos. Tal como
anteriormente a 2-3-5, também a WM viu o seu fim, dando lugar a uma formação
mais moderna, o 4-2-4. Contrariamente ao nascimento da WM, o aparecimento desta
não esteve relacionada com nenhuma alteração a regras. Pelo contrário, aqui foi
provavelmente onde começaram as alterações tácticas baseadas em análises
críticas da situação actual do jogo e das necessidades específicas da partida.
A Numeração Original
Antes de passar à formação em si, vamos dar uma vista de
olhos pela numeração original dos jogadores. Embora parecendo uma trivialidade,
a verdade é que a sua origem está também envolta em algum conservadorismo e
isso acabou por ter repercussões na história do futebol e acima de tudo, na
história das posições de futebol.
Apesar da numeração ter sido uma ideia que ia aparecendo
aqui e ali desde os primórdios do futebol, foi apenas em 1939 que a FA Inglesa
– à altura uma das mais respeitadas autoridades mundiais do futebol – decidiu
tornar obrigatório o uso de numeração nas camisolas dos jogadores. E, apesar
dos recentes desenvolvimentos que tinham levado à criação da WM e a sua massificação,
a FA optou por tomar uma posição conservadora na numeração. Assim, tratou a
questão como se o 2-3-5 ainda fosse o padrão e todas as restantes, uma mera
alteração esporádica.
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| Numeração Original do 2-3-5 |
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| Numeração numa WM |
Assim, era compulsório o 2 para o defesa-direito, 3 para o
defesa-esquerdo; 4 para o médio-direito, 5 para o médio-centro, 6 para o
médio-esquerdo; 7 para o
extremo-esquerdo, 8 para o avançado-direito, 9 para o avançado-centro, 10 para
o avançado-esquerdo e 11 para o extremo-esquerdo.
Aqui se pode satisfazer um conjunto muito interessantes de
curiosidades. Nomeadamente o porquê de o avançado-centro envergar o nº 9. Ou o
facto de os extremos usarem tipicamente o 7 e o 11. Assim como a razão para o
nº 5 normalmente pertencer a um defesa – lembrem-se que era um médio-centro no
2-3-5 até ter regredido para o centro da defesa na WM. Estes números pertencem
à própria história do futebol e com repercussões até ao dia de hoje.
O Nascimento do 4-2-4
O surgimento desta formação pode ser atribuído a não uma,
mas várias personalidades. Alguns dirão que era uma evolução natural da WM
visto que apesar do seu surgimento ter resolvido uma situação preocupante e ter
aberto o jogo para uma dinâmica até aí não usual mas ao mesmo tempo trazido
outro tipo de problemas. A WM acabou por se disseminar como uma praga entre as
equipas europeias e mundiais. E isso trouxe a sua quota de problemas. Se
olharmos para a forma da WM conseguimos perceber imediatamente uma
característica: ela é perfeitamente simétrica. Isso, entre outros factores,
acabou por levar a uma certa rigidez nas equipas, já que a formação “encaixava”
directamente na WM adversária. Cada jogador tinha um e um só marcador e o jogo
concentrava-se na capacidade de o bater para desenvolver a jogada.
Assim, foi surgindo uma certa concepção daquilo que fazia
uma boa equipa. Notavelmente, no que diz respeito ao avançado-centro, começou a
ser comum a ideia de que este homem teria que ser um poço de força e porte para
poder bater-se com o agora defesa-central. Este último, recorde-se, tinha sido
baixado desde o meio-campo para servir de elemento central na defesa e evoluiu
de “construtor de jogo” para um homem desprovido de grande técnica cuja função
era parar o avançado-centro. Ora, os avançados do estilo “homem-touro” até
abundavam em Inglaterra, o supra-sumo do futebol da altura, mas tal não era o
caso noutros lugares da Europa.
O húngaro Márton Bukovi deparou-se com este problema em 1948
e para resolve-lo lançou as bases para a criação do 4-2-4. Vendo que não tinha
nenhum avançado com a capacidade física para se bater com o defesa adversário
decidiu revolucionar o jogo e ao invés de manter um homem na frente, subiu os
seus dois interiores e desceu o ponta-de-lança. Estavam 4 jogadores na frente.
Já que o avançado funcionava agora como um médio, o seu estilo de jogo colidia
com o dos restantes 2 médios. Assim, um começou a recuar um pouco mais para uma
tarefa mais defensiva enquanto o outro subiu um pouco no terreno para se juntar
ao novo “avançado-recuado”. Esta foi no entanto, apenas o início duma revolução
que viria a atingir o seu auge no Brasil.
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| O 4-2-4 de Bukovi |
Flávio Costa, ex-seleccionador Nacional do Brasil durante o
Mundial de 1950 foi outro dos pioneiros na evolução para o 4-2-4 no panorama
Mundial. Quando tomou conta do Flamengo nos anos 1940’ decidiu revolucionar a
WM, criando aquilo a que chamou “a diagonal”. A diagonal consistia em alterar a
forma do quadrado central da WM para uma forma de losango. Mantendo 3 defesas,
baixou um dos médios para uma posição mais defensiva e avançou um dos
avançado-interiores para a posição que viria a ganhar celebridade como o
“número 10”, o outro avançado-interior recuava ligeiramente para não deixar
demasiado espaço nas suas costas. Esta “diagonal” era alterada na forma para
acomodar os diferentes adversários ou um jogo em particular, querendo isto
dizer que por vezes poderia ser o avançado-interior direito o mais próximo do
avançado-centro ou o contrário.
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| 4-2-4, uma WM com "diagonal" pela esquerda. |
A razão pela qual o 4-2-4 teve uma aceitação tão elevada na
Brasil prende-se com algo que se mantém surpreendentemente actual. As condições
para a aprendizagem e jogo do futebol no início do século passado eram
extremamente pobres. A grande maioria das crianças aprendia a jogar em favelas
ou campos improvisados e tipicamente pequenos. Como era de esperar floresceu a
cultura do drible curto e fintas artísticas. No fundo o similar ao futebol de
rua que ainda hoje parece ser característico dos grandes “mágicos” brasileiros.
Ora a WM era uma formação muito rígida, mas com 4 jogadores a contribuir para o
ataque e jogar entre linhas existe uma capacidade muito maior para o improviso
e arte futebolística. Mais do que isso, algo que era altamente característico
da 4-2-4 era a sua dinâmica até dos defesas. Com o espaço que sobrava entre os
laterais e os extremos era mais do que natural que os primeiros aproveitassem
para subir no terreno e contribuir para o ataque, muito ao estilo de hoje em
dia. E como havia 4 elementos na defesa, sempre que um subia continuavam a restar
3 para parar qualquer elemento adversário, especialmente as equipas que ainda
jogavam em WM!
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| 4-2-4 em posse e a defender |
Na prática isto significava que o 4-2-4 raramente se
apresentava na forma sugerida, mas antes em 3-3-4 a atacar ou em algo similar a
um 4-3-3 a defender (um avançado ou um extremo desciam para ajudar o meio-campo
no caso brasileiro). O que é até bastante previsível, já que um meio-campo que
fosse exclusivamente constituído por 2 elementos pela certa que não conseguiria
aguentar as exigências do jogo.
O 4-2-4 espalhou-se rapidamente pelo Brasil, numa fase
inicial com a diagonal de Flávio Costa e depois explodindo em popularidade com
Béla Guttman – que mais tarde viria a fazer sucesso em Portugal, à frente do
Benfica de Eusébio. O seu êxito foi tal que culminaria com duas vitórias
sucessivas no Campeonato do Mundo de Futebol pela Selecção do Brasil, em 1958 e
1962. Pela altura do Mundial de 1966 a WM estava enterrada na História.
Antologia Táctica: Volume I - O Início AQUI
Antologia Táctica: Volume II - O Nascimento da WM AQUI







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