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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Antologia Táctica: Volume I - O Início das Formações.

Nesta época de 2012/2013 o Sporting apresenta-se em campo num esquema táctico 4-3-3 alternado. Significa isto que a equipa joga com 4 defesas, 3 médios e 3 avançados. A maior variação que ocorre de jogo para jogo é no meio-campo. Frequentemente, dependendo das necessidades, é substituído um médio de cariz mais ofensivo por um de afinidade defensiva para conter melhor os adversários. Esta troca tem sido observada quando, por exemplo no jogo contra o F.C. Porto, jogaram de início Rinaudo, Dier e Adrien ao invés de Rinaudo, Dier e Labyad contra o V. Setúbal. O tipo de estratégia depende evidentemente da dificuldade do adversário em questão.

Sporting 2012/2013, 4-3-3 com um trinco.
Sporting 2012/2013, 4-3-3 com duplo-pivô defensivo.

O 4-3-3 (nas suas variadas formas) e o 4-4-2 (idem) são actualmente as formações mais comuns no futebol europeu, com uma menção honrosa para as variantes que usam 3 defesas. São as ditas, formações modernas. Mas, existir uma denominação de “formação moderna” implica que já tenham existido “formações antigas”. Afinal, o jogo não foi sempre jogado como nos dias de hoje. Qual era o aspecto deste futebol primitivo? E em que diferia do actual? Porque é que diferia? Caros adeptos leoninos, hoje vai falar-se de História do futebol.

O futebol moderno, ou seja, o futebol que tem um conjunto de regras definidas e mais ou menos estáveis e que é considerado actualmente o desporto-rei no Mundo, nasceu no final do século XIX na Grã-Bretanha. Mas desengane-se quem pensa que foi uma invenção espontânea. Nada disso, o futebol nasceu a partir do râguebi. Hoje em dia, parecem desportos completamente diferentes, mas se pensarmos um bocado conseguimos perceber que o seu propósito é semelhante: um conjunto de pessoas tenta levar um objecto até um ponto no campo oposto ao que ocupa. Hoje, as semelhanças ficam-se por aí, há 120 anos, nem por isso.

Na versão mais primordial do jogo a ideia era levar um esférico até uma baliza, defendida por uma pessoa. Para isso, um jogador corria com a bola nos pés contra o terreno adversário, enquanto os outros elementos na sua equipa o seguiam em linha (dando-lhe cobertura) para o caso dele perder a bola. O passe era uma coisa que a eles, não assistia. O jogo, no início dos anos 1860´s era largamente à base do drible. Passar era simplesmente considerado pouco másculo e era evitado.
A ausência do passe era também um reflexo das primeiras regras negociadas e aceites, por volta de 1863. Com efeito, a avó da regra do fora-de-jogo, chamada na altura Lei Seis, dizia que “Quando é efectuado um passe, nenhum jogador da mesma equipa pode estar mais próximo da baliza do que o próprio jogador que passou, estando impedido de tocar na bola ou afectar o jogo”, ou por outras palavras, os passes apenas poderiam ser feitos para trás e para os lados (note-se, incrivelmente similar ao estilo de jogo do râguebi onde também é apenas permitido o passe para trás). Daqui se pode deduzir que a melhor maneira para ganhar um jogo era ter muitos avançados e pouquíssimos defesas.

Aquilo que era necessário para revolucionar o jogo e na verdade, o passo gigante para a proliferação do passe como um modo de jogo legítimo era uma alteração à regra do fora-de-jogo. E essa veio em 1863: liberalizava o passe para qualquer lado, desde que entre o jogador que recebia a bola e a baliza existissem 3 jogadores, ou seja, o guarda-redes e mais 2.(Note-se, mais um jogador do que actualmente.)

Isto é muito importante, porque a partir do momento em que se pode passar livremente para a frente, não faz mais sentido os jogadores correrem em linha e jogar sem defesas, já que bastaria uma “moderna” desmarcação de um jogador mais rápido para receber uma bola lançada na frente e haveria logo perigo imediato. Assim, surgem as primeiras formações geralmente usadas: o 2-2-6 e o 1-2-7. Na altura não havia designação de formações, pelo que esta terminologia usada é moderna.

Formação primordial, o 2-2-6.

É de notar que, apesar do passe para a frente ser agora mais liberal, a mentalidade Inglesa continuava fortemente inclinada para o drible individual com passes ocasionais em último recurso – a ideia era que um jogo deveria ser ganho à custa da supremacia física e não do intelecto táctico. Esta ideia foi derrotada apenas aquando do primeiro jogo internacional de sempre: Escócia contra Inglaterra, em 1872. Inglaterra era largamente favorita, com todos os seus jogadores a serem muito mais portentosos do que os franzinos Escoceses, esperava-se uma goleada épica. A verdade é que a Escócia adoptou um esquema 2-2-6 (contra o 1-2-7 inglês) que assentou fortemente na desmarcação e passe ao primeiro cenário de perigo, circundando efectivamente os seus adversários e impedindo a supremacia física. O jogo terminou num empate a zero, mas as repercussões foram gigantescas, passando os Ingleses a perceber a genialidade do passe e de como isso poderia revolucionar o jogo.

Este impacto foi tão profundo que, a partir do final da década de 1870’ praticamente todas as equipas que aspiravam a ganhar alguma coisa (e não havia assim muito para ganhar na altura) assentavam o seu jogo em passes sucessivos e desmarcações para receber e jogar a bola. Isto acabou por levar a uma conclusão drástica: havia avançados a mais na frente! Mais notavelmente, havia demasiados avançados no centro para um jogo de passe. Assim nasce aquela que é geralmente aceite como a primeira grande formação do futebol moderno (após o estabelecimento do jogo de passe): o 2-3-5.

A formação 2-3-5

O que aconteceu no 2-3-5 foi que um dos avançados-centro desceu para se juntar aos dois médios. A sua função passou a ser fulcral num jogo de futebol no final do século XIX – estava criado o primeiro organizador de jogo e o primeiro “box-to-box”. Era o centro da equipa e por muitos considerado o homem mais importante em campo. A sua função era ajudar na defesa e ajudar no ataque, criar oportunidades para os avançados, aparecer na frente para marcar também. Era o pêndulo da equipa.

A proliferação do futebol ao resto do mundo deu-se a partir daqui, o momento em que ficou definitivamente separado do râguebi e se tornou num jogo de passe. A formação 2-3-5 imediatamente tornou-se o símbolo do futebol e com ele espalhou-se por toda a Europa e América do Sul. O sucesso desta formação foi tal que permaneceu virtualmente inalterada até 1925, onde uma pequena alteração nas regras do jogo a tornaram obsoleta. Sim, foi mais uma alteração à regra do fora-de-jogo.

NOTA: este é o primeiro de um conjunto de artigos que falará de algumas curiosidades do futebol. No próximo volume será abordado mais um período temporal e o surgimento da W-M. Fiquem atentos.


Antologia Táctica: Volume II  - O Nascimento da WM AQUI
Antologia Táctica: Volume III - O 4-2-4 AQUI