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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Opinião: Negócios entre os grandes? Não, obrigado.



Verão de 2010: José Eduardo Bettencourt comunica à nação Sportinguista que o seu capitão, João Moutinho está vendido. A sua cláusula não é batida e o destino não é um, há muito prometido, clube estrangeiro. O destino de Moutinho é um clube nacional, o Futebol Clube do Porto. Um rival. Compreensivelmente, a notícia causa choque entre os adeptos. Um dos seus jogadores mais promissores, um menino da Academia, o capitão, é vendido ao rival do Norte.

“Mas o clube não fica de mãos a abanar” – há-de ter pensado o Presidente. O jogador é vendido por 11 milhões de euros e recebe em troca metade do passe de Nuno André Coelho, que passa a integrar a defesa do Sporting. “Os negócios entre os grandes clubes são coisa normal no futebol Mundial. E são uma prática de louvar que só enriquece o futebol” – ouvia-se um pouco por toda a parte. Pois claro… Fiquem contentes sportinguistas, estão a contribuir para o progresso do futebol!

Dois anos depois o filme é o mesmo. Apenas os actores são diferentes: Marat Izmailov segue para o Norte e Miguel Lopes segue para a Capital. A época não corria bem e aparentemente a melhor maneira de curar a coisa era vender mais um médio. Mas ficar com um defesa. Segunda dose em dois anos para os adeptos.

Isto é um sinal dos tempos? Estes negócios são assim tão normais, saudáveis ou recomendáveis?

Obviamente que não.

Ao contrário do que alguns querem fazer crer, estes negócios não são normais. Não são recomendáveis. Não são exemplo de nada que possa ser positivo para o bom funcionamento de um clube de futebol. E raramente são equilibrados.

Vejamos o caso do Sporting: em dois anos foram vendidos dois dos seus melhores jogadores. E os dois para um rival. Nenhum deles com um retorno financeiro apreciável. E quanto a desportivo, é questionável. Na verdade, sem retirar qualquer mérito aos jogadores envolvidos no percurso contrário (que o têm), estes acabaram por servir mais como um desvio de atenção do que uma moeda de troca propriamente dita.

Em 2010, o Sporting não precisava de um central. Havia Carriço, Polga, Torsiglieri, Caneira e Tonel. Nuno André Coelho também não foi consensual, poucas presenças e pouca influência. Na época seguinte foi vendido ao S.C. Braga, metade do valor para o Porto, como acordado. Por Izmailov veio Miguel Lopes, um lateral direito de qualidade inegável… mas para quê? Em Janeiro o Sporting era uma das equipas com menos golos sofridos da Liga, como aliás ainda é. Para o seu lugar havia 3 jogadores (!). Destes, Cédric vinha de uma época excelente na Académica e foi um dos jogadores mais influentes na equipa sub-20 vice-campeã do Mundo. Um jovem em plena fase de afirmação e certamente com um futuro brilhante pela frente. Estava longe de ser o problema do Sporting nesta malfadada época. De Miguel Lopes sairá também 50% para o Porto, tanto quanto de Izmailov virá para o Sporting – mas Miguel tem 26 anos, Marat tem 30. Não é difícil perceber quem sai por cima.

Muito pior do que desportivo, é o factor emocional. Sim, porque o futebol está muito longe de ser apenas um desporto – só é um desporto para quem o pratica, 22 pessoas num estádio. O futebol é um espectáculo emocional: o seu principal motor são os adeptos e a sua ligação com os seus clubes e respectivos jogadores. Só este tipo de relação explica a dimensão titânica que atingiu.

O maior problema quando existem trocas de jogadores entre rivais, principalmente de grande dimensão, é o sentimento de desalento e traição que assola os adeptos. Sim, porque o jogador de um clube, ao fim de algum tempo, não é apenas uma peça de xadrez. Para um adepto que acompanha carinhosamente a sua equipa um jogador torna-se num modelo, um ídolo, um herói. Os fãs não ensaiam cânticos para um jogador apenas porque acham que o seu nome encaixa bem num “hit” pop do momento, eles fazem isso porque se preocupam com ele e o consideram um verdadeiro elemento da sua família desportiva. Vê-lo a mover-se para um adversário directo é como ser apunhalado pelas costas por um filho que cuidamos durante anos (exagero aparte).

E não existe essa necessidade. O argumento “foi melhorar as suas condições salariais” é de uma hipocrisia repugnante: é óbvio que é válido, mas para o comum dos mortais que ganha 700€ num lado e vai para a concorrência ganhar 1500€, nunca para um jogador de futebol que ganha 70.000€ num lado que vai ganhar 150.000€. E para um rival!? Alguém acha mesmo que o João Moutinho não tinha lugar em quase qualquer outro clube da Europa que não o Porto? Ou que o único clube capaz de levar de GRAÇA o Marat era o rival do Norte? Claro que não!

O êxodo para um rival é simultaneamente imoral e insultuoso, porque nem existe necessidade nem justificação plausível que consiga resistir a uma simples análise crítica honesta. Em termos equiparáveis, trocar um jogador com um rival é o mesmo que os EUA virarem-se para a Rússia e dizer: “Olhem, temos aqui esta bomba atómica novinha e que nos dá muito jeito, mas ela gostava mais de estar do vosso lado, pelo que vamos atirar areia para os olhos dos nossos cidadãos exigindo em troca esse MiG ferrugento que vocês têm aí a mais. Pode ser?”. Certamente que a Rússia apreciaria a oferta.

Trocar jogadores com um rival não é de exaltar, não é de louvar, nem é de elogiar. É pura e simplesmente fornecer armas a um adversário directo com o qual se compete um ano inteiro para chegar à sua frente. Em todos os outros clubes estrangeiros onde aconteceu (aqueles que os “especialistas” gostam de usar como exemplo justificativo para estes negócios) a reacção dos adeptos foi a mesma – muito má. Veja-se as recepções dos adeptos do Arsenal a Van Persie. Ou relembrem-se dos cognomes de Figo em Barcelona.

Estes negócios certamente funcionam para algumas pessoas – afinal, há sempre dinheiro a circular, e isso faz algumas pessoas muito felize$ -, mas ferem sempre e profundamente os adeptos.

E não são, na verdade, os adeptos a principal razão de existência do futebol e dos seus clubes!?

E tu, o que pensas disto? Deixa a tua opinião.
Anónimo disse...

Grande post, mais uma vez. Concordo que ambas as vendas eram escusadas e de muito pouco serviram ao Sporting. Realmente o exemplo dado com os EUA e a Rússia deixa transparecer exatamente aquilo que se passou entre o Sporting e o FC Porto, que saiu claramente mais beneficiado com ambas as transferências.

Não me lembro muito bem de ver João Moutinho jogar pelo Sporting, era bastante nova e não fui capaz de criar nenhuma afinidade nem de o acarinhar ou algo do género, pelo que aquando da transferência dele para o FC Porto, passei a odiá-lo com toda a minha força. Peço desculpa por dizer isto assim mas é exatamente isto que sinto...

Quanto ao Izmailov, que sempre foi um jogador querido pelo Sporting e sempre foi acarinhado pelos Sportinguistas (incluindo por mim), não consigo vê-lo como um traidor, desertor, como alguém que se tenha aproveitado ou servido de nós e que, à primeira oportunidade que teve para nos deixar mal, nos tivesse abandonado, assim, do pé para a mão. Simplesmente não sou capaz de o ver como tal. Sempre o vi como o meu menino querido, sempre foi um dos meus jogadores preferidos, sempre adorei vê-lo de leão ao peito, sempre me emocionei ao vê-lo jogar com a verde-e-branca e sempre foi um dos meus orgulhos. Porque é que deixaria de o ser só porque saiu do Sporting? Gosto bastante dele e quero vê-lo feliz, independentemente de ser em Alvalade, no Dragão ou fora do país.

Muitos podem chamar a isto dualidade de critérios, sou bem capaz de ser a única Sportinguista a pensar assim, mas é isto que sinto e não consigo alterar os meus sentimentos/gostos/opiniões apenas porque outros não os acham corretos.

Diogo Rodrigues disse...

Trocas boas com o Porto? Só me lembro de 1 boa - Rui Jorge!! Excelente defesa esquerdo. De resto foi tudo barretes.

Sporting Clube De Portugal - Adeptos disse...

Concordo contudo.. ficamos sempre a perder com estas trocas!

Anónimo disse...

Entendo que um qualquer negócio deve ser, e sublinho deve ser, bom para as partes envolvidas, pois que, quando não o é, e para além de eventuais estratégias de poder, passará a ser sim,ou asneira da grossa, ou acto de subserviência sempre censurável porque demonstrativo de clara falta de grandeza e de categoria.E é neste patamar de vergonha que eu coloco as acções de alienação tanto de João Moutinho, filho do Sporting Clube de Portugal, como de Izmailov - o tal que,e conforme li algures, aquando da recepção do Sporting pelo Porto,logo após ter sido vendido João Moutinho, recusou cumprimentá-lo, ao contrário de outros colegas,virando-lhe até mesmo as costas, numa clara demonstração de desagrado pelo que o João tinha feito ao Sporting.Daí o espanto, a perplexidade ao sabê-lo contratado pelo Porto...!E a ser verdade que,de facto,Izmailov protagonizou tal acção, não posso deixar de o considerar pouco profissional e até mesmo pouco honesto.Já João Moutinho, percebeu que no ambiente que Alvalade lhe oferecia nunca poderia ganhar títulos, razão porque,e baldadas as hipóteses de sair para o estrangeiro,terá, acho eu, diligenciado de forma um pouco também menos profissional para abandonar Alvalade. De qualquer forma e para mim,não serão nunca profissionais que figurarão no galarim dos melhores atletas sportinguistas, o que lamento.Saudações verdes!